O que é uma aeronave tipo?

Muitas pessoas sonham em fazer carreira pilotando grandes pássaros de metal.  Afinal, ser piloto é uma grande oportunidade para viajar pelo mundo e ver o nosso planeta por um ângulo diferente diariamente. Para pilotar um grande pássaro desses é necessário que além da formação básica de piloto, o aviador obtenha também a certificação daquele tipo específico de aeronave, o chamado type-rating, pois praticamente todas as aeronaves de porte médio e grande porte, exigem que o piloto se qualifique para operá-la individualmente.

Apesar de comum em países da Europa e nos Estados Unidos, não é prática comum no Brasil, que um piloto obtenha a habilitação de uma aeronave com classificação tipo por conta própria, ou seja, pagando do próprio bolso. Tal habilitação normalmente é adquirida após o piloto ser contratado por uma empresa, seja ela de táxi aéreo ou comercial, e todas as despesas com o treinamento ficam, portanto, por conta da empresa em questão. São cursos caros. Para se ter uma ideia, em escolas de aviação ao redor da Europa, o piloto que quiser se habilitar para voar o Boeing 737, por exemplo, poderá ter que desembolsar valores entre os US $ 17.000 e US $ 37.000.

A analogia mais simples a uma classificação do tipo é a carteira de motorista. A habilitação de piloto ainda sem qualificação em uma aeronave tipo, permite que ele pilote alguns tipos de aeronaves, normalmente, monomotores e bimotores à pistão ou alguns turbo hélices menos complexos. É como o motorista comum que ao tirar sua carteira de motorista está habilitado a dirigir um carro pequeno ou uma caminhonete, no entanto, se o motorista quiser dirigir um caminhão, ele ou ela precisam obter um outro tipo de qualificação. Na aviação, a coisa vai um pouco mais além: Imagine se agora esse motorista de caminhão necessitasse ter a habilitação específica para dirigir um Scania ou uma outra habilitação para dirigir um Volvo. Na aviação é assim. Cada tipo de aeronave, uma certificação específica.

Portanto, quando um piloto quer pilotar grandes pássaros, ou quando for contratado por uma empresa para tal, ele fará o curso específico deste tipo de aeronave. Tal curso consiste nas partes teóricas e práticas, sempre envolvendo testes e avaliações. Por exemplo: digamos que um piloto foi contratado por uma empresa que tenha em sua frota aeronaves dos modelos Boeing 737 e Boeing 747. O piloto contratado, foi designado para voar o Boeing 737 (normalmente a contratação ocorre para o equipamento menor, porém nada impede que ele venha a ser contratado para voar a aeronave maior também). Ao ingressar na empresa, ele iniciará a parte teórica do aprendizado da aeronave, o que é conhecido por Ground School, onde ele estudará especificamente o Boeing 737, seus sistemas (hidráulico, elétrico, automatismo, controles de voo etc.), suas características, limitações e modos de operação.

Após aprovado nos testes teóricos (sim, testes no plural, pois podem ser vários!) o piloto partirá então para a parte prática, onde fará o treinamento em simulador de voo, um dispositivo que replica com exatidão a cabine de pilotagem (cockpit) da aeronave assim como toda a sua performance operacional. Além do voo normal, é no simulador que o piloto treinará as possíveis panes e problemas que ele poderá encontrar na aeronave de verdade.

Ao final desse treinamento, o piloto passará por uma avaliação (conhecida como check ou checkride) e em sendo aprovado, passará a constar em sua licença de piloto, a habilitação para voar o Boeing 737.

As coisas, porém, não param por aí. Mesmo depois de já habilitado na aeronave, o piloto passará pela instrução em rota, que nada mais é do que o voo de linha, na aeronave real, porém acompanhado de um comandante instrutor. São nesses voos que o piloto vai aprender e se acostumar a operação normal do dia a dia daquele tipo de aeronave. E ao final da instrução? Mais avaliações para que finalmente o piloto possa ser liberado em rota e fazer parte do quadro de pilotos da empresa.

Lembrando que existe sempre carga-horária mínima para cada fase dessa instrução, porém essa pode variar de acordo com a experiência prévia do piloto, exigência da agência reguladora de aviação local, requerimentos do fabricante da aeronave ou até mesmo pelo padrão escolhido pela própria empresa.

E se, alguns anos depois, a empresa transferir o piloto do 737 para o 747? Toda essa história se repete! Começar tudo de novo para se habilitar no novo tipo de aeronave.

Além da habilitação de aeronave tipo, ao longo de sua carreira como piloto, outros desafios que exigirão novo treinamento e aprendizado ainda virão, como por exemplo, quando ele for designado para voos internacionais, quando precisar se habilitar para um outro tipo de operação (pouso com baixa visibilidade, por exemplo), quando novos equipamentos, novas tecnologias ou novas regras são implantadas na aeronave, nos aeroportos ou no espaço aéreo, ou para quando finalmente, ele for promovido ao cargo de comandante.

A progressão de carreira de um piloto varia de lugar para lugar. No Brasil, normalmente, os primeiros empregos são em aeronaves particulares ou operando para táxi-aéreo, voando bimotores ou turbo hélices e pequenos jatos, esses já exigindo a habilitação tipo, acumulando experiência para cumprir o mínimo exigido para aplicar para uma vaga em uma linha aérea.

 Nos Estados Unidos, um típico progresso na carreira começa nas subsidiárias regionais, voando aeronaves menores como o ATR, Bombardier CRJ ou Embraer, antes de subir lentamente a escada para as principais companhias aéreas, como Delta Air Lines ou American Airlines e operar seus grandes jatos.

Na Europa, por outro lado, as grandes companhias aéreas são mais propensas a oferecer emprego direto. Algumas empresas até fornecem programa de cadetes. Após a conclusão, um piloto recém-formado tem a chance de trabalhar com a companhia aérea, voando aeronaves como o Airbus A320, Boeing 737 e etc.

Um piloto, ao fim de sua carreira, pode ter passado por inúmeros treinamentos de habilitação de aeronaves tipo, sem contar todos os outros cursos que estão envolvidos na vida de um piloto profissional.

 É, sem sombra de dúvidas, uma vida de muito estudo e dedicação.

Dica TFF

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Alexandre Figueiredo
Admin
Alexandre Figueiredo
4 meses atrás

Aeronaves tipo e a importância do treinamento específico. Muito bom!