Recentemente, durante uma onda de mau tempo que trouxe tempestades e muito vento à Inglaterra, vários vídeos circularam na internet mostrando aeronaves aproximando de lado, balançando as asas, e muitas vezes, arremetendo.

Muitos desses vídeos, vem acompanhados de mensagens com opiniões equivocadas e exageradas, e pior, muitos viram notícia na grande mídia com títulos, manchetes ou chamadas sensacionalistas, sem nenhum embasamento técnico, transformando um procedimento normal em uma “quase tragédia”.

Para o leigo, o procedimento pode parecer perigoso. Para o passageiro, pode ser um indutor de adrenalina, com aquela aceleração rápida e subida repentina.  Sabemos, porém, que o objetivo número um de uma arremetida, conhecido pelos pilotos como go-around, é apenas garantir a segurança de todos a bordo. 

O procedimento de arremetida, embora não muito comum, é usado na prática sempre que uma tentativa de pouso pode potencialmente dar errado por uma razão ou outra.

Existem muitas razões que levem os pilotos a tomar tal decisão, entre elas apenas o fato de estarem desconfortáveis para prosseguir naquela aproximação por simplesmente terem alguma dúvida sobre algo envolvendo a aeronave ou o aeroporto de destino. E para aviação, em tudo que envolve segurança, a dúvida é algo que não pode existir. Há até um jargão entre os pilotos: Na dúvida, arremeta! 

Entre alguns outros fatores que podem disparar uma arremetida, vale destacar:

Meteorologia

De acordo com a Flight Safety Foundation, a razão mais comum para a execução de uma arremetida é o clima.

Condições meteorológicas adversas, incluindo visibilidade, tempestades com chuva forte, neve, vento forte e/ou com rajadas, estão entre as condições mais comuns. Por exemplo, se a velocidade do vento durante a aproximação for muito alta,  estiver acima do limite máximo certificado para a aeronave, ou se este vento não permite que a aeronave mantenha-se totalmente estabilizada na sua rampa vertical ou lateral, ou ainda se a visibilidade reduzida não permita que o piloto possa ter contato visual com a pista quando atingir a altitude mínima para tal, um procedimento de arremetida deve ser iniciado.

Sim, os pilotos sempre dispõem de informações meteorológicas e previsões com muita antecedência ao início do seu voo e não iniciam um voo caso o aeroporto de destino esteja fechado por fenômeno meteorológico, ou tenha previsão de fechar no momento da chegada do voo. O clima, porém, é algo muito dinâmico, e muitas vezes, um aeroporto mesmo estando aberto para pousos e decolagens, pode apresentar condições desafiadoras para que seja efetuado um pouso com total segurança, e nesse caso, a arremetida é o procedimento a ser seguido.

Aproximação desestabilizada

Toda aeronave deve atingir o procedimento de aproximação final em uma certa “janela” de velocidade e altitude. Chegar neste ponto muito veloz ou muito alto pode ser descrito como uma das situações em que a tripulação não conseguiu estabilizar adequadamente a aeronave antes da aproximação final. Outros fatores como razão de descida acentuada e configuração inadequada dos dispositivos de sustentação (flaps e slats) ou inclinação (bank) acentuada também podem denotar uma desestabilização na aproximação.

É o que os pilotos chamam de “chegar muito quente”, ou também ironicamente de “alto porém veloz”.

 A indústria aeronáutica utiliza alguns critérios de altitude mínima em uma aproximação, onde a aeronave deve estar totalmente configurada para pouso. Esses critérios, podem sofrer algumas variações de acordo com os padrões da empresa aérea, autoridade aeronáutica local, entre outros, porém,  como regra geral, sempre que um pouso for realizado usando regras de voo de instrumentos (IFR) em condições meteorológicas por instrumentos (IMC), tais critérios precisam ser atendidos a 1.000 pés acima da elevação do aeroporto. Se um pouso for realizado usando regras visuais de voo (VFR) em condições meteorológicas visuais (VMC), os critérios devem ser atendidos a 500 pés acima da elevação do aeroporto.

Uma aproximação que se torna desestabilizada abaixo de 1.000 pés acima da elevação do aeroporto em condições IMC ou abaixo de 500 pés acima da elevação do aeroporto em VMC requer uma arremetida imediata.

Os principais parâmetros para que uma aeronave seja considerada estabilizada na aproximação final são: Estar na velocidade correta, na altitude correta, com os flaps posicionados na posição correta e planejada para o pouso, além do trem de pouso baixado e travado.

Pode acontecer também, a desestabilização a baixa altura que ocorre quando uma aeronave que já vinha estabilizada para pouso, se desestabiliza por conta de uma rajada de vento ou de um erro de julgamento do piloto, por exemplo, o obrigando a arremeter muito perto da pista e as vezes até, após o toque nela.

Problemas técnicos

Problemas técnicos, apesar de incomuns, podem ocorrer em qualquer fase do voo. Na aproximação não é diferente. Um problema técnico que ocorra durante uma aproximação, é uma das situações que mais requerem poder de decisão — o famoso decision making, gerenciamento e consciência situacional por parte dos pilotos. É nessa situação que o piloto deve analisar o problema e decidir se há tempo hábil de continuar na aproximação com segurança ou se é necessário descontinuar o procedimento, e caso esteja na aproximação final, arremeter.

Problemas mais simples e que não interfiram na configuração da aeronave (posição dos flaps, por exemplo), velocidade de aproximação ou que não impactem na distância a ser utilizada para pouso, geralmente não requerem a execução de uma arremetida, principalmente se acontecerem numa altitude ainda elevada ou a uma distância ainda grande da pista de pouso. O mesmo problema, porém, caso aconteça já muito próximo da pista e muito baixo, podem demandar uma arremetida para que a leitura do checklist de procedimentos de emergência (QRH-Quick Reference Handbook) seja efetuada e para que o problema seja resolvido, antes de iniciar uma nova aproximação.  Dependendo do tipo de procedimento que está sendo executado, o fabricante da aeronave ou o operador podem definir altitudes limites para auxiliar os pilotos nesse decision making.

Problemas mais complexos vão normalmente demandar a arremetida de qualquer forma, principalmente quando uma nova aproximação deve ser feita com uma configuração diferente de flaps ou com uma velocidade maior, que irão, entre outros fatores, demandar uma maior distância de pista a ser utilizada para o pouso.  É preciso, portanto, calcular novamente se há pista suficiente para o pouso com segurança, e caso não tenha, proceder para outro aeroporto que sustente o pouso naquelas condições.

Proximidade com outros tráfegos

Outra situação não muito comum, mas que pode acontecer principalmente em aeroportos muito movimentados, é quando a aeronave acaba se aproximando demasiadamente da aeronave que a precede na aproximação. Para cada tipo de aeroporto, para cada tipo de procedimento e principalmente, para cada classificação de aeronave por seu peso, há uma distância mínima regulamentar que a aeronave seguidora deve manter. Por exemplo, para a ICAO — International Civil Aviation Organization — uma aeronave categorizada como leve, deve manter uma distância mínima de 6 milhas náuticas caso esteja seguindo uma aeronave pesada, uma aeronave categorizada como média, deve manter 5 milhas atrás de uma pesada e uma aeronave pesada pode manter apenas 4 milhas quando segue outra da mesma categoria.

Caso essa distância se torne, por algum motivo, menor do que o padrão mínimo, uma arremetida deve ser iniciada.

Ainda com relação a proximidade com outros tráfegos, há também a possibilidade de uma arremetida precisar ser efetuada caso a aeronave a frente não tenha livrado a pista de pouso a tempo de a aeronave seguinte efetuar o pouso com segurança ou até mesmo um veículo de serviço do aeroporto ou outro intruso, estiver ocupando a pista de pouso.  Nessa situação, a ordem da arremetida pode partir do próprio órgão de controle de voo e o piloto deve imediatamente segui-la.

Como dito, go-around é um procedimento que apesar de ser normal, não acontece com tanta frequência assim. É um procedimento dinâmico, onde a aeronave, devido a grande aceleração em um curto espaço de tempo, ganha energia de forma muito rápida e exige atenção para que nenhum limite seja excedido, principalmente a velocidade máxima para a posição de flap requerido para a arremetida e  a altitude máxima inicial do procedimento, dois dos parâmetros mais comuns de se excederem durante essa manobra.

O go-around é uma manobra que exige maior atenção dos pilotos, principalmente porque, além do dinamismo da manobra, não é um procedimento que se pratique a todo momento, como uma decolagem ou um pouso. Um piloto, mesmo que voe quase todos os dias, pode passar meses ou até mesmo anos sem precisar efetuar uma arremetida em suas operações reais. Este é um dos motivos para que essa manobra seja incansavelmente treinada em cada sessão de simulador de voo pelos quais um piloto passa semestralmente.

Para os aviadores vale portanto, destacar a importância do treinamento do procedimento de go-around , a adequada adesão a seus procedimentos, incluindo um briefing com a revisão técnica da manobra e sobre o procedimento a ser seguido para o aeroporto ao qual se aproximam.

Aos entusiastas e profissionais da aviação, deixo a mensagem para sempre filtrar,ou até mesmo ignorar e contestar matérias jornalísticas e posts em mídias sociais com informações equivocadas e sensacionalistas, ajudando a informar corretamente o público geral, para que um simples procedimento não se torne motivo de terror, principalmente para aqueles que tem medo de voar.

Lembre-se sempre: Na dúvida, arremeta!

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Ronald Van Der Put
Safety
Ronald Van Der Put
2 anos atrás

Ótimo artigo, Henrique Motta. Precisamos mesmo dismistificar essa falsa percepção de que a arremetida é algo anormal, muito reforçada pela abordagem sensacionalista da mídia. Obrigado por exemplificar as várias razões técnicas que levam o piloto a executar uma arremetida.

Alexandre Figueiredo
Alexandre Figueiredo
2 anos atrás

Excelente, Henrique! É sempre bom explicar os detalhes da operação para que, cada vez mais, pessoas não se deixem levar por matérias sensacionalistas. Matérias essas que prejudicam pessoas, que acabam desenvolvendo pânico por voar.