Por que é tão fácil apontar um caminho melhor?

Para iniciar, tomo como premissa que praticamente a totalidade dos atores do cenário da aviação, seja amador, profissional ou estudante, uma hora ou outra, já se deparou com a expressão “Consciência Situacional”.

Primeiramente, analisando o berço do conceito da Consciência Situacional, no início dos anos 90, observa-se que o assunto era tratado como uma espécie de construção mental, necessária para explicar o que levaria as pessoas a perceber, esquecer ou lembrar de algo. Já nos estudos mais atuais, o tema é abordado como uma espécie de atributo basilar para o processo decisório e, por conseguinte, para a tomada de decisão em si.

Desde o primeiros apontamentos, a “perda da Consciência Situacional” tornou-se uma das causas mais recorrentes em acidentes e incidentes; Sobretudo com uma avalanche de automação integrada não só aos cockpits, mas também aos meios de transporte como um todo, o que resultou em inúmeros contratempos relacionados ao desempenho humano na aviação, transporte e em outras modalidades.

Não que o incremento nos níveis de automação, especialmente sobre os sistemas de Flight Guidance, não representem desafios à performance das tripulações. Contudo, há de considerar que um deficiente desempenho vai muito além do resultado em si, que seria apenas “a ponta do iceberg”.

A conscientização adequada de uma situação é uma notação que nos ajuda a organizar as evidências disponíveis, a fim de idealizar o contexto (operacional, social, ergonômico etc.) onde as pessoas estavam inseridas, e assim poder fornecer um ponto de partida para entender o motivo de tais evidências serem apreciadas de maneira diferente, ou de modo algum, pelos envolvidos.

Muitos fatores ambientais, tais como o Stress (físico ou psicológico), a Carga de trabalho (seja Sobrecarga ou “Subcarga”), o Design dos sistemas onde estamos inseridos, sua complexidade e seus níveis de automação, podem representar um grande desafio à capacidade de uma tripulação em manter um alto nível de Consciência Situacional.

Mas afinal, é conveniente para nós, profissionais da aviação, um público especializado, que nossas análises contenham um potencial suficiente para atribuir o resultado de um evento desastroso tão somente à construção mental, que influenciou por completo o desempenho de uma tripulação?

Cabe ressaltar que, muitas vezes, esse “veredito popular” é balizado por conjecturas e especulações, trazendo consigo um raciocínio superficial, contudo, categórico.

Essa mentalidade julgativa acaba se enraizando em nossa cultura e rotina, principalmente quando falamos sobre fatores operacionais isoladamente, deixando de fora a abordagem sobre os fatores humanos.

Um exemplo disso é o nosso vocabulário. “Perder a consciência situacional” ou “falta de Consciência da Situacional” tornou-se uma caracterização legítima de casos em que acreditamos que as pessoas não sabiam exatamente onde estavam ou o que estava acontecendo ao seu redor e, consequentemente, acabaram expostas a condições indesejáveis.

“Se tivessem menos confiança nessa indicação”

“Se tivessem investido mais energia no exame dessa pane”

“Como eles não perceberam isso?”

O fato é que analisar um desencadeamento de eventos após a sua finalização, de fora para dentro, sempre irá nos mostrar que havia algo mais a ser considerado naquela situação específica do que na mente da outra pessoa envolvida no evento, pois, em retrospectiva, qualquer um pode mostrar ou afirmar o que de fato aconteceu.

Essa diferença entre o que realmente existia e o que foi considerado no evento, nós podemos chamar de perda de Consciência Situacional do praticante.

Em outras palavras, o contexto no qual  o indivíduo estava inserido, exigia mais, seja em níveis de percepção, compreensão ou projeção, do que aquele indivíduo poderia, na condição e ambiente em que se encontrava, render.

Ou seja… Out of sight, out of mind.

Uma vez que conhecemos o resultado, fica fácil estabelecer indicações e evidências que mostrariam aos envolvidos o real contexto que estavam inseridos.

Logo, as inúmeras oportunidades para se detectar a natureza real da situação se tornam claras APENAS em retrospectiva.

Atingir esse entendimento, possivelmente seja um dos principais desafios para nossa comunidade.

Autor: Humberto Farias

Editor: Alexandre Figueiredo

Imagens: Cortesia de Johnson Barros

https://www.flickr.com/photos/johnsonbarros/

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Humberto
Humberto
10 meses atrás

Agradeço o apoio, Alexandre!

Alexandre Figueiredo
Admin
Alexandre Figueiredo
10 meses atrás

São diversos fatores para estudar e entender o que houve num evento catastrófico. Devemos ter cautela para que não haja julgamentos, sem o completo entendimento da situação. Tema interessante, muito bom!

Grupo Teaching For Free
Admin
9 meses atrás

Excelente post, Humberto! Obrigado por colaborar.