Por Oscar Coiado

Em 1986, um amigo meu, o Bezerra, comprou um ultraleve Tierra. Aprendeu a voar e descobriu que conseguia fazer uma série de manobras proibidas para uma aeronave mesmo homologada e não acrobática.

Ele gostava de dar um mergulho, passar em voo rasante sobre a pista, puxar até o ultraleve ficar na vertical e comandar um “wing over”, manobra que a aeronave faz uma curva na vertical e retorna com nariz para baixo, saindo em novo voo rasante.

Avisei para ele que era uma manobra proibida, que era perigoso para ele e as pessoas, e que ele poderia entrar em parafuso… Fez graça com minha cara e disse que era milico, e que eu pensava que só os milicos conseguiam fazer aquilo, e que eu tinha inveja dele que era muito melhor de voo que eu…

Foto: Teratorn Aircraft

Estávamos em Castanhal, PA, na pista do Clube de Campo Ibirapuera. Estávamos em vários ultraleves. Eis que o Bezerra pousa com a namorada, amiga de todos dali, gente muito boa. Assim que pousaram ela veio falar conosco e pediu que aconselhássemos o Bezerra, que tinha ido de Belém até Castanhal (70 km) em voo rasante e fazendo “graça”, que ela não se sentia a vontade, e que iria voltar de carona com alguém… Logo depois o Bezerra chegou conosco, conversamos e tentamos falar… Virou as costa e nos disse – aprendam como se voa.

Depois de uns 10 minutos de voo com todas as merdas possíveis, veio para o rasante e puxou… Vimos o ultraleve parar na vertical… Só que em vez do wing over, o ultraleve girou “por sobre a asa” configurando um parafuso. O Bezerra (nós vimos porque não estava alto) puxou o nariz e continuou com todo o motor (configurou mais ainda o parafuso e a baixa altura)… O ultraleve bateu de nariz com o solo…Eu estava perto de onde se deu a pancada e fui o primeiro a chegar nele… Quadro horrível de se falar, mas estava todo quebrado… Eu comecei a tentar fazer alguma coisa… Ele estava preso nas ferragens… Ele pediu – Meu irmão não me deixe morrer… Pouco depois morreu quando já o estávamos colocando na caçamba de uma camionete… Morreu pedindo para que eu não o deixasse morrer. Um amigo médico e mais alguns estavam juntos na remoção dele das ferragens… Tinha 28 anos…

As vezes nossas emoções nos colocam em determinadas situações que não há retorno e nos tornamos passageiros de nossos escolhas.

Quem tem uma experiência assim fica com a sensação de culpa. “Eu sabia que ia dar nisso, e se eu fosse mais forte em minhas investidas isso não ocorreria…”

Conversei com algumas pessoas que passaram pela mesma situação e a experiência é a mesma. A irresponsabilidade é uma forma de suicídio.

Temos como mensurar a situação imediata de um acidente e fatores contribuintes. Não temos como mensurar todas as responsabilidades das relações pessoais (por exemplo) por ação ou omissão que levaram uma situação a se tornar acidente. Por ação, quando um exemplo é seguido e sedimenta em formas de agir, como rasantes, manobras e operações de risco. Por omissão, quando (por exemplo) deixo de compartilhar informações ou experiências que possam vir a servir de juízo e decidir entre fazer e não fazer algo que leve a uma situação de risco.

Pessoas que passaram pela experiência como a que descrevi acima, geralmente passam a falar, a contar, a tentar agir para o que é desastroso não ocorra.

Posso falar dos acidentes e conta-los, mas não há como eu falar dos que não ocorreram pela minha ação de falar… Do primeiro carrego o peso de culpa por não ser mais assertivo, e do segundo peço a Deus que eu tenha conseguido.

Autor: Oscar Coiado

Co-Autor: Jansey Tura

Editor: Alexandre Figueiredo

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Alexandre Figueiredo
Alexandre Figueiredo
1 ano atrás

A importância de respeitar os limites. Muitos aprendizados, parabéns.